sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Depois...



Depois... a madrugada abriu um sorriso,
A lua escorregou no horizonte liso,
As estrelas tremeluziram mistérios,
A manhã alvorou sem critérios.

Depois... a alma perdeu a essência,
As horas peregrinaram com displicência,
A tarde acercou-se maravilhada
Porque o sol afagava a florada.

Depois... a mudez envolveu o corpo refeito
Com um manto tecido com efeito
Em momentos quando a letícia era protagonista
De uma história dirigida para a conquista.

Depois... sobrevivemos juntos, protegendo-nos da desgraça.
Confiamos um no outro, e a felicidade da graça
Perpetuou-se nos sonhos meus e nos teus.
Confiamos, assim, que nunca diremos adeus.

Mardilê Friedrich Fabre

Imagem: adrianabeatriz.blogspot.com

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Conflito



Uma paz sem procedência
Ilude o poeta
E devolve-lhe a calma.
O céu avermelha-se,
Repousa seu presente
Na fímbria da terra.
A noite aproxima-se lentamente,
Enlaça a existência.
Conduz consigo a formosura da lua
E o cintilar desconcertante das estrelas.
Pelo ar espalha-se fragrância
De afetos ocultos.
Nos vincos das mentes românticas,
O passado, teimoso,
Turva o presente.

E trava-se o conflito...
A imaginação fértil
Apoia lembranças sem data,
Diluídas nas águas dos sentimentos.
Suspiros embebidos em notas musicais
Emergem das sombras.
Dó que atravessa tempos de sol
Desce de lá com palavras de Fá.

O presente destrói o muro
Que o separa de outrora.
Torna-se doce,
Corta os infortúnios,
Aproveita o fulgor da lua,
Intervém com asas de anjo,
Invade o caminho do tempo,
Transforma momentos em magia,
Confunde a alma ingênua
Que se refugia na quietude
Das dobras das horas dormentes.

O passado não quer ser esquecido.
Envia sua mensageira
Sempre presente.
A saudade atinge em cheio
O poeta que, aturdido pela desordem
Dominante em seu coração,
Converte-se em refém da esperança
De retratar em versos
O enredo de sua jornada
Entre emoções molhadas pela essência
De suas inquietações inocentes
Que culminam no voo solitário
Para o silêncio de si mesmo.

Mardilê Friedrich Fabre
Imagem:www.fotolog.com

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Sintonia



Minto para mim mesma,
Desvio os pensamentos das lembranças
Das nossas noites atrevidas,
Dos teus abraços acalentadores,
Da tua boca ansiosa,
Das tuas mãos inquietas,
Do teu corpo ondulante de regozijo.

A poesia transborda de ti,
Rega-me de felicidade incontida.
És palavra viva
Que me cativa
E migra para minh´alma

Entre a bruma da manhã,
Apareces como se nunca te afastaras de mim
E do meu carente coração.
Escuto o eco da longínqua
Melodia da esperança
Que não me permite controlar
A indiferença estigmatizada da ternura.

Acreditar na tua volta
É quase impossível...
Mas... estás na minha frente.
O sorriso inflamando-me o peito.
Minhas faces vermelhas condenam-me.
Num milésimo de segundo a razão prevalece,
Dura pouco a lucidez...
Basta que a tua mão
Toque a minha numa proposta muda,
Carregada de afetividade,
Emanada do teu seio inviolável,
Para todo o meu ser
Vibrar na mesma sintonia do teu.

Mardilê Friedrich Fabre
Imagem: closetopaolaoliveira.blogspot.com

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Versos que não escrevi



Saudades dos versos que não escrevi,
Tão leves! lembram o voo do colibri.
Com gosto de beijo de morango,
Tão sensuais! como uma letra de tango.
Não revelam nosso apaixonante segredo,
Tão misteriosos! têm a vida como enredo.
Não cumprem sua missão: despertar amor,
Tão entristecidos! morrem no coração do criador.
Deixam sementes nos caminhos da alma,
Tão envolventes! abraçam o tempo com calma.

Não ensinam a usufruir dos sorrisos de rubi,
Tão abandonados! perdidos nos redobres do frenesi.

Mardilê Friedrich Fabre
Imagem: utopia43.blogspot.com

Este é um poema cuja autora nomeou "enlaces disticus."
Teoria:http://comocriarpoemas.blogspot.com.br/2015/09/enlaces-disticus.html





sábado, 4 de junho de 2016

Saudades...



Saudades...
Do crepitar vermelho
Que cozinhava lentamente
A ambrosia dos deuses
(Vontade de provar...)
“Vai queimar o dedo, guria!”.

Saudades...
Do troc troc troc da máquina de costura
Que dava forma ao tão sonhado vestido,
Ímpar, perfeito, sem igual.

Saudades...
Do caminhar cantarolante
Para a hora do café da tarde...
Do colo quentinho na hora da dor.
Sanava qualquer mal.

Saudades...
Do carinhoso curativo nos joelhos sangrentos...
Dos provérbios, em vez do “eu te avisei!”

Saudades...
Das vidas que vivem em mim,
Que me amaram,
Apesar dos meus defeitos,
Que acreditaram em mim,
Que me ensinaram
A aceitar as horas de provação
Com um sorriso nos lábios.

Mardilê Friedrich Fabre


sábado, 7 de maio de 2016

Amor Materno



É inexplicável o amor materno...
Veemente, enfrenta sem medo o inferno
Para libertar um filho da dor,
Abrigando-o em seu colo protetor.

É o amor que faz do pranto canção,
Que sob a cama luta com dragão,
Que resolve o problema como fada,
E traz serenidade desejada.

É o amor que se dilui em carinhos,
Que facilita todos os caminhos.
Se surgir pesadelo que apavora,
Segura as mãos até nascer a aurora.

É o amor que doura e reluz a vida,
Como o brilhante o caráter lapida.
É a seiva que alimenta seu fruto,
É a alegria de ter sempre um minuto
Para expulsar a mágoa da alma ferida.


Mardilê Friedrich Fabre

Imagem:belatrya.wordpress.com

domingo, 24 de abril de 2016

Um dia feliz




Na quietude do domingo,
a ave gorjeia feliz.
No papel, letras respingo.
Procurando a diretriz,
transformam-se em versos.
Alegra-se a praça em festa,
com cores e sons diversos
que a afetividade atesta.

Nesta tarde ensolarada,
rastros de luz me conduzem
para a cidade encantada,
onde os sonhos tremeluzem.
Sou passageira perene.
Combato as adversidades
com intrepidez infrene:
carrego felicidades.

Mardilê Friedrich Fabre

Imagem:noticias.ne10.uol.com.br 

domingo, 13 de março de 2016

É fato consumado


A solidão tornou-se minha companheira.
Um rosto envelhecido
No espelho refletido
De outro, jovem, é apenas cópia grosseira.

A juventude deu lugar à senescência.
Nãocomo negar,
O tempo tem de andar.
Vai longe a leviandade da adolescência.

Atinge-me fundo o vazio das perguntas.
As bocas que detêm
Respostas que não vêm,
Vozes que deveriam falar calam juntas.

Com o olhar impaciente esquadrinho o infinito.
Por que não cessa a dor
E retorna o esplendor?
É preciso sair sentimento maldito.

Com as mãos postas em prece espero perdão.
As notas musicais
Abafam tristes ais
Enquanto o anjo conduz a sincera oração.


Mardilê Friedrich Fabre

Imagem: br.freepik.com

domingo, 6 de março de 2016

Olhar gótico


Rodam enganos e sonhos
Entre as chances que aparecem e vão rápido...
Largam suas sementes.

Muitos se insinuam na alma;
Outros tombam no descuido catastrófico
Do esquecimento indevido.

A delicadeza do abrigo
Acrescenta-se à certeza sintomática
Da distância das carícias.

Aproxima-se a imagem
Devagar e esvoaçante sempre nítida,
Elegante e encantada.

Não há surpresas à vista.
Intercalam-se entre os olhos novos bálsamos
Que se sobrepõem às mágoas.

Não é apático o rosto,
Não há desordem, desagrado, no olhar gótico,
Mas derradeiro equilíbrio.

Mardilê Friedrich Fabre
Imagem:www.fondosni.com

Teoria:http://comocriarpoemas.blogspot.com.br/2015/05/corola.html


sábado, 20 de fevereiro de 2016

Descompasso das palavras



Chocam-se palavras em conflito.
Presas na concha do coração,
Surpreendem-se com a aflição
Do que para o papel eu transmito.

Associam-se de uma maneira,
Mas meus dedos desobedientes
Entornam sentimentos prementes
Que coam solidão prisioneira.

Aos sonidos falta sintonia.
Libertam-se sem rumo, sem norte,
Ofuscam-me a mente, seu suporte,
Dispõem as cordas da poesia.

Pasma-me do poema o final.
Meu intento era a alegria cantar,
Mas as palavras vêm exclamar
O inusitado, o excepcional.

Mardilê Friedrich Fabre
Imagem: doam-sepalavras.com.br

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Resgate

Foto:Maria Inês Daudt

O dia encosta sua borda na noite,
Enquanto o sol percorre
Seu caminho de cores,
Regido pelo silêncio que exerce
Sua atração pela lua.
As estrelas atapetam de brilhos
As tortuosas trilhas da paixão.
O jasmim emana seu perfume luxurioso
Que a música enreda na saudade
O cheiro de terra molhada
Regada por melancólicas gotas de chuva.
Fascinantes recordações esborrifam no tempo
E resgatam a menina de tranças
Que brinca de pés descalços nas poças d´água
Sem pressa, receptiva à delicadeza
Que só ela percebe neste mundo de frustrações.

Mardilê Friedrich Fabre





domingo, 7 de fevereiro de 2016

Reinício


De meus olhos cai o desencanto.
Terminou o delírio, portanto,
Que me obscurecia o pensamento
E confundia-me o sentimento.

Não derramo lágrimas inúteis.
Não confio mais nas tuas fúteis
Palavras que me narcotizavam
Nem em teus olhos que me enganavam.

Enredaste-me na tua teia.
Tolo meu coração titubeia.
Confunde-se na sua certeza.
Inda não crê na tua torpeza.

Desfaço-me, então, desta agonia,
E a minha sensatez me auxilia.
Esqueço enfim nossa triste história
E principio outra trajetória.

Mardilê Friedrich Fabre

Imagem: vivomaissaudável.com.br

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Décimas

Poemas criados para o laboratório de poesia "um poema não tem fim", grupo do facebook.




Este tipo de composição literária se chama guaroj. Sua teoria pode ser conferida no seguinte link:
http://comocriarpoemas.blogspot.com.br/2016/01/guaroj.html

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

De cara com a verdade



A verdade lambe-me os pés,
Mesmo assim, teimo em não vê-la.
Contudo, ela insiste e aparece...
Na criança que esmola,
No homem que dorme na calçada,
No adolescente que cuida de carros
Para sustentar os irmãos menores,
Na mulher que alimenta o filho
Em seu seio magro e seco,
No catador que remexe o lixo,
No lixeiro que corta a mão
Com um caco de vidro
Colocado displicentemente na lixeira,
No namorado que perde a amada
Por causa da superlotação do hospital,
Na louca que grita pelas ruas o desrespeito,
No esfarrapado que ziguezagueia a desventura,
Na mãe que chora o desaparecimento do filho
Numa guerra cruel e inútil,
No idoso que sofre
Com a indiferença dos filhos...
Meu coração chora perplexo,
Não aguenta tanto flagelo...
Rebela-se, tentando redesenhar o mundo,
Corrigindo a negligência,
Todavia falta-lhe fôlego e poder.
São muitas as desventuras e as necessidades
Que esbarram em ambições desmedidas.
Desolado, derrotado e ressequido,
Enfrenta a verdade incontestável:
Precisa tomar uma atitude
Por menor que seja sua capacidade
E descobre que pode distribuir amor,
Incontestavelmente pode amar
Sem rejeições nem exclusões,
Sem medos nem dores.
E, despido de si mesmo,
Atira-se à fantasia
De inflamar ao menos
Sua própria vida.

Mardilê Friedrich Fabre

Imagem: caraisartes.arteblog.com.br